Análise de Poema: Sete faces (Drummond) e Com licença poética (Adélia Prado)


Poema de sete faces
Carlos Drummond de Andrade

Quando nasci, um anjo torto 
desses que vivem na sombra 
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

As casas espiam os homens 
que correm atrás de mulheres. 
A tarde talvez fosse azul, 
não houvesse tantos desejos.

O bonde passa cheio de pernas: 
pernas brancas pretas amarelas. 
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração. 
Porém meus olhos 
não perguntam nada.

O homem atrás do bigode 
é sério, simples e forte. 
Quase não conversa. 
Tem poucos, raros amigos 
o homem atrás dos óculos e do -bigode,

Meu Deus, por que me abandonaste 
se sabias que eu não era Deus 
se sabias que eu era fraco.

Mundo mundo vasto mundo, 
se eu me chamasse Raimundo 
seria uma rima, não seria uma solução. 
Mundo mundo vasto mundo, 
mais vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer 
mas essa lua 
mas esse conhaque 
botam a gente comovido como o diabo.

Com licença poética
Adélia Prado

Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou tão feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
- dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade da alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.
__________________________

Você deve estar se perguntando, por que essa doida colocou esses dois poemas aqui? Mas ao mesmo tempo acho que você já sabe a resposta.

O poema de Adélia Prado intertextualiza com o poema de Drummond e isto é fácil de perceber já no início de ambos.

Os dois autores viveram na mesma época, Drummond (1902-1987) e Adélia Prado (1935). Foram grandes amigos e foi o próprio Drummond que pediu para que publicassem o livro da autora, interessante não é? 

Bom, mas vamos lá para a análise. Só uma observação, quando eu colocar número 1 antes de uma citação é do Drummond e 2 é da Adélia.

Podemos perceber que os poemas tem o mesmo estilo no início:

1 "Quando nasci, um anjo torto / desses que vivem na sombra / disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida."

2 Quando nasci um anjo esbelto, / desses que tocam trombeta, anunciou: / vai carregar bandeira.

Consegue perceber a diferença dos anjos? O 1 é um anjo meio torto, parece que do mal, pois vive nas sombras. Já o 2 é esbelto e toca trombeta, será um Querubim? Talvez. Porém ambos fazem um anuncio, parece até o que o anjo Gabriel fez a Maria "você dará a luz ao filho de Deus.". 

Drummond o anjo manda ser Gauche na vida, o que significa ser diferente, andar na contramão. Usou uma palavra de origem francesa, que significa esquerdo. O poema foi publicado pela primeira vez em 1930 no seu livro "Algumas Poesias". Mostra talvez um momento pessimista do autor. Bom no final saberemos se sim ou não.

Já o Anjo "maravilhoso" da Adélia Prado anuncia que ela vai carregar bandeira. Ué como assim? Ela seria defensora de suas ideias, iria lutar por elas. Um poema talvez feminista? O poema foi publicado em 1976 no seu livro Bagagem. Coincidência ou não, parece que foi o primeiro poema do primeiro livro, assim como o de Drummond.

Voltando a Drummond, sim, seu poema tem um que de depressivo, questionador. Questiona até Deus, parece um ser incompreendido. Fala: "se eu me chamasse Raimundo", este nome significa: sábio protetor, aquele que aconselha. É, bem diferente de Gauche, não? 

Quase nunca podemos ligar os poemas aos autores, pois eles têm seu eu lírico, não quer dizer que é o autor que está falando de si mesmo. Entretanto o poema "As sete faces" é diferente, pois este eu lírico parece ser o próprio Drummond, uma autobiografia de seus sentimentos. Começa com seu nome "Vai, Carlos". O poema é composto por sete estrofes, cada uma falando de um momento, talvez dai que venha o título. 

Já Adélia, também vemos um pouco dela no poema, mulher valente, batalhadora, buscando seus propósitos. Luta, sente dor, mas está sempre de pé. O título do texto "Com licença poética" é para dizer: "olha, meu amigo Drummond, vou pegar seu texto emprestado e "dar uma melhorada" nele, colocar um pouco de feminilidade e encanto". Será? pode ser. 

Veja o que a própria autora sentia enquanto escrevia seu primeiro livro: "Meu primeiro livro foi feito num entusiasmo de fundação e descoberta nesta felicidade. Emoções para mim inseparáveis da criação, ainda que nascidas, muitas vezes, do sofrimento”

Da para perceber que a fase dela é melhor que a dele, não é?

O poema de Adélia não é separado em estrofes, mas é possível separá-lo em 7 momentos.

Desta vez, não vou analisar cada estrofe, para não ficar muito extenso, eu quero que você, meu querido leitor, não se canse e vá embora. Então fica só mais um pouquinho que já vou finalizar, prometo.

Terminando de analisar Drummond, ou melhor, seu poema, vemos que este eu lírico é um ser incompreendido de si mesmo, cheio de desejos por mulheres, mas mesmo assim se sente só, em uma multidão. Não se encontra no mundo em que Deus o colocou, por isso o questiona. Diz que é bom para aconselhar, mas ele mesmo, anda sempre na contramão. Poema triste não?

Já Adélia Prado, se mostra uma mulher forte. Explicita o lado difícil de ser mulher. Há alguns anos, a mulher era muito mais desvalorizada, mas mesmo assim não se deixa abater, segue buscando provar o seu valor. Ela mostra que não se importa em sentir a dor de um parto, a dor de viver, pois a colheita é boa. E finaliza com uma frase incrível: "Vai ser coxo na vida é maldição pra homem. / Mulher é desdobrável. Eu sou."  Nem preciso dizer o tapa na cara que ela dá nos homens machistas.

Infelizmente não temos mais nosso querido Drummond, descobri que morreu no ano em que eu nasci, então já faz 30 anos que perdemos esse poeta incrível. Mas essa querida escritora, que representa as mulheres, a alegria e a força da vida, Adélia Prado ainda vive, plena, com seus 82 anos, completos hoje, dia 13/12/2017. É por isto que resolvi fazer esta publicação, espero que tenha gostado.

Há, já ia me esquecendo, perceberam que até as fotos se intertextualizam? Ah que lindo.

Beijos, Nane

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6 comentários

  1. Adorei esses poemas. Eu desde pequeno amo Carlos Drummond, é sempre bom ler algo dele!! :) <3

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  2. Olá, Ariene.
    Gostei muito do seu trabalho, e da forma didática que você elaborou sua análise dos dois poemas. Eu não conheço muito poemas e dificilmente os leio, mas gostaria que fosse diferente.
    Eu fiquei com uma dúvida e gostaria de compartilhar. Haveria uma conexão entre o momento político e social com os poemas? É que a década 1920 é muito representativa para a produção cultural e o ano de 1930 marca uma enorme mudança política com a Revolução de 1930 que levou Getúlio Vargas ao poder e deu início ao Governo Provisório (1930-1934).

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    1. Muito obrigada Rodrigo pelo elogio. E obrigada pela pergunta interessantíssima. Sim, quase sempre há conexão entre os escritos e o momento em que vive o escritor. Muitos poemas, crônicas e livros foram grandes críticas sociais. E esses problemas sociais foram inspirações de grandes obras. Precisamos ler os textos nas entrelinhas, elas têm muito para nos falar.

      Espero que tenha ajudado.

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  3. Oi Ariane, tudo bem?

    Primeiro, quero parabenizá-la por este post, pois imagino que não tenha sido nada fácil criá-lo. Analisar poemas é algo bem difícil e você o fez com maestria, realmente lendo todas as entrelinhas e puxando o que de mais intenso ele possui. Eu não conhecia esse poema do Drummond e não conhecia a Adelia também, então adorei emergir no trabalho dela.
    Seu post é um daqueles que me enchem de esperança na recuperação da nossa literatura, na verdade, seu blog no geral é assim. Parabéns!

    Beijos!

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  4. Gente, que bacana esse post!
    Gosto muito desse poema do Drummond (aliás, gosto muito de Drummond, que leio desde o início da adolescência). Algo que gosto muito no Poema das Sete Faces é uma multiplicidade de vozes que brota dele. Quase como se cada estrofe tivesse uma voz (ou uma face!).
    E o poema da Adelia é de uma delicadeza comovedora. Ecoa e transforma esse eco em outras ações. Drummond foi uma espécie de descobridor da poesia de Adelia Prado, e claro que ela era uma leitora assídua da obra de Drummond...
    Só não sei se eu classificaria a poesia de Drummond, ou o eu-lírico por trás dela, como depressiva. Vejo mais é pessimismo, um olhar desencantado para um mundo vivendo tempos caóticos (entre guerras).
    Beijos! :)
    https://teofilotostes.wordpress.com/

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  5. Uau, adorei a analise do poema, eu sou daquelas que buscam mais sentir que interpretar os poemas, mas esta analise mostra que escrever poemas vai muito além, fala de como somos nos vemos. Há um que de pessimismo no poema dele e um que de coragem no dela. Adorei!!!!!

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